Uma Carta de um Apóstata
Uma carta de despedida de um apóstata da Harmonia, relatando uma rebelião na prisão instigada pela Lei Divina.

Uma Carta de um Apóstata

Ao Sr. Gopher Wood,

Escrevo-lhe sobre um único e silencioso compasso na ária infinita de Constantina, a cantora do Teatro Panacústico.

Há muito tempo, você ofereceu sua fresca sombra para abrigar exploradores errantes. No entanto, eles buscaram substituir os hinos da Harmonia por seus próprios hinos dissonantes, chegando ao ponto de incitar uma rebelião contra seu salvador. Suportamos grandes provações para finalmente expurgar sua dissonância, mas a vitória foi custosa. Você foi despojado de sua forma física e condenado como pecador pela Família principal, enquanto eu também perdi muito naquele grande incêndio. Eu então o deixei para embarcar em uma peregrinação aos locais sagrados da Grandeza, nunca imaginando que testemunharia o destino final daqueles apóstatas.

Como aconteceu com todos os condenados, a afinação da Família principal lhes arrancou a carne, reduzindo-os a anseio sem desejo, substância sem vontade e fé sem convicção. Seus pensamentos mais puros foram repartidos e desmembrados, tornando-se versos de canção, passagens de escritura e linhas de lei, tudo para ser absorvido na magnífica "Lei Divina Primordial" da Grandeza, tecida em seu cântico e envolta em infinitos tons acima.

Durante minha peregrinação, testemunhei uma visita do Teatro Panacústico. As estrelas moveram-se, mil sons ressoaram como um só, e milhões de pensamentos dançaram em êxtase à ária da cantora Constantina. Contudo, mesmo como marionetes, aqueles condenados recusaram-se a gastar a vida proclamando o acorde consonante. Com seus últimos vestígios de vontade, encenaram um motim final. Os "Decretos" chamados "Liberdade" avançaram todos por um único compasso. Foi apenas um único compasso, mas a vontade combinada de milhões de condenados, mantidos cativos e catequizados pelo hino por incontáveis anos, introduziu uma nota passageira de dissonância na sinfonia. E devo admitir... essa breve dissonância me comoveu mais profundamente do que o refrão das estrelas jamais o fez.

Mas foi apenas por um instante. As cordas incharam para ocultar a nota dissonante e, num lampejo, os decretos, junto dos últimos vestígios da vontade de seus mestres, foram aniquilados. Eles encontraram a libertação pela qual ansiavam, e o hino passou a carregar, desde então, um compasso silencioso e eterno.

E isso, talvez, seja a falha inerente no Caminho que trilhamos.

A Família permanece, em êxtase, submersa em seu paraíso de harmonia cósmica. Mesmo quando os espinhos que cobrem o chão perfuram seus pés, só conseguem comover-se às lágrimas pelo amor infinito que sentem naquele arrepio de dor. Se todas as crenças devem de fato ser acolhidas na "Lei Divina Primordial", então essas vozes dissonantes, agora sancionadas como notas legítimas, podem trazer consequências muito mais profundas do que jamais poderiam imaginar.

Escrevo-lhe agora para oferecer uma despedida verdadeira. Embora já tenhamos nos despedido na minha partida de Penacony, ambos ainda nutríamos a crença de que voltaríamos a nos encontrar ao longo do Caminho da Harmonia.

Ainda tenho um profundo agradecimento pela sua orientação, mas já não consigo acreditar que voltaremos a nos encontrar.